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Espera, visita: encontro

Valdeci Angelo Garcia

 
 

I – Espera

Manhã de visita no asilo. Desde a madrugada, o velho Severino sabia que o filho viria vê-lo naquele domingo. Era a certeza a brotar-lhe no coração, um truísmo. Poderia afirmar (se pudesse falar) que sua convicção quanto à visita era a mesma de que o Sol nasceria dali a alguns minutes.
O Sol nasceu. Apresentou-se com raios multicores a se imiscuírem no amplo dormitório pelas vidraças antigas e empoeiradas. Em conluio com o astro, o relógio do corredor badalou seis vezes. Ao contrário do que fazia todos os dias, o velho Severino não se opôs a que o levassem ao banheiro, dessem-lhe banho e lhe fizessem a barba – escanhoamento de todos os domingos. Chegou a esboçar um sorriso para os companheiros, que se preparavam para tomar o café da manhã, ir à missa dominical na capela e, finalmente; prostrar-se na sala de visitas à espera dos familiares.


(Nove horas.)

O velho Severino foi colocado pelos enfermeiros do asilo na sala de visitas. Acharam estranho que o velho quisesse ir para lá (o que ele lhes dissera por meio de mímicas e grunhidos), pois, nesses cinco anos em que fora internado pelo filho; jamais recebera qualquer visita, e nunca quisera ir àquela sala.
Aberta a porta principal, a alegria entrou por ela. Eram parentes chegando, abraços efusivos, beijos estalados, risos festivos, e até choros de felicidade. O velho Severino observava seus companheiros e não lhes sentia inveja: ele também seria visitado naquele domingo... Até ganhou sobras de carinho, porque os que passavam por sua cadeira lhe afagavam os cabelos brancos, batiam-lhe nos ombros e lhe diziam “Olá, como vai o senhor?”. Ele balançava a cabeça, querendo dizer (com a ajuda do brilho nos olhos quase apagados): “Estou bem, estou feliz, porque meu filho amado vem me visitar hoje”.

(Onze horas.)

Quase todos já se retiraram da sala de visitas: com a chegada dos parentes e amigos, os internos iam com eles para o jardim colorido, ou para o clube, onde havia um bailinho naquele dia. Por isto, o velho Severino ouvia a canção alegre que vinha lá do fundo do prédio. Uma mecha de sol batia-lhe no pijama roto – e dava-lhe a impressão de que estava vestido com uma roupa de ouro. Ficou olhando aquela maravilha, mas sem nunca se descuidar da porta de entrada.

(Doze horas.)

O velho Severino estava sozinho. Até o enfermeiro que ficava por ali a observar os velhos, preparado para alguma eventualidade, havia saído para almoçar. “Espera um pouco aí, vozinho”, disse-lhe ao sair. A porta continuava insensivelmente fechada. Mas o velho Severino pensava: “O Sol veio me ver, é bom sinal: meu filho também virá”. Severino ainda tinha esperança (e posso adiantar ao leitor que não se enganara).

(Quinze horas e trinta minutos.)

O enfermeiro voltara há muito tempo, e trouxera consigo o bandejão com o almoço do velho Severino. Ele não quis comer: estava tão excitado com a visita esperada, que não sentia fome. Agradeceu ao enfermeiro com um aceno de cabeça e devolveu-lhe o almoço intacto.
Faltava apenas meia hora para o encerramento do horário de visita. Muitos parentes de internos já haviam saído – passavam pelo velho Severino e batiam-lhe de leve no ombro, mas agora para consolá-lo. (Por que consolá-lo? O velho Severino não precisava ser consolado, não precisava da compaixão de ninguém; porque iria ser visitado!)

(Dezesseis horas.)

Fim do período de visita. O enfermeiro olhou com pena para um Severino cabisbaixo, que não mais fitava a porta insensível. Sem oferecer resistência, o ancião foi levado de volta para o dormitório. Mas agora não estava solerte: o corpo lhe pesava muito – era o peso de seus noventa anos se fazendo sentir por inteiro; duplicado, aliás, de uma forma que nunca havia ocorrido antes. As suas pernas travaram de vez, assim como os seus braços; o pescoço endureceu; e o velho nem sequer podia soltar os grunhidos por intermédio dos quais se comunicava. Apenas uma coisa estava completamente viva nele: os olhos, nos quais um observador atento poderia detectar duas lágrimas brotando nos cantos de há muito ressecados.
Como morto, o velho Severino foi deixado na cama.


II - Visita

“Pai, eu vim lhe visitar! Em todo esse tempo, jamais o esqueci! Vim aqui todos os dias! Velei o Senhor nas noites frias; tentava em vão lhe cobrir para que a friagem não enrijecesse ainda mais suas juntas, mas eu não podia levantar as suas cobertas... Nos seus momentos de tristeza, eu conversava com o Senhor, passava-lhe energia positiva – e era por isso que o Senhor, às vezes, sorria sem saber o motivo. Sei que não vai compreender agora o fato de eu nunca ter vindo lhe visitar aos domingos, como os outros filhos fazem. Ah, pai! O Senhor não ficou sabendo, mas, naquele dia em que o deixei aqui, por total falta de opção, como eu já lhe havia explicado antes de trazê-lo; saí desarvorado, desesperado, sentindo-me o pior dos homens. Mesmo sabendo que não estava ao meu alcance cuidar do Senhor, mesmo sabendo que aqui o Senhor teria mais conforto do que em minha casa; não podia deixar de me recriminar. E, para piorar o meu sofrer, revia os bons momentos que passamos juntos em nossa casinha lá na roça; relembrava o Senhor voltando do trabalho e me abraçando, para depois tirar do bolso surrado o doce que havia trazido para mim; revivia nossas brincadeiras e risadas, os passeios que fazíamos sob os arvoredos com a mamãe... Meu Deus! Como sofri por não poder fazer o tempo voltar! E assim, aniquilado, distraído, eu caminhava pelas ruas da cidade. Fui atropelado. Meu sangue se desfez, meus ossos trincaram, minha carne se desprendeu dos ossos: desencarnei! Mas nunca me afastei do senhor, porque era necessário que lhe passasse bons fluídos, que lhe amparasse o coração, para que o Senhor continuasse a ter vontade de viver; para que chegasse ao termo de seus dias de forma satisfatória, e não precisasse retomar este estágio. Apesar de todo o sofrimento e sensação de estar abandonado, o Senhor continuou a me amar incondicionalmente – e isto me ajudou em minha caminhada, e o ajudará também; agora que chega a sua vez de fazer a passagem. Boa viagem, pai!”

III – Encontro

Uma luz maviosa envolve levemente o velho Severino (que, aliás, já não é mais velho nem Severino). No meio da luz, seu filho (que já não é mais seu filho) o abraça. “Está tudo bem agora”, fala-lhe com os olhos. E ambos caminham de mãos dadas para o centro da luz.
No asilo, o funcionário encarregado de arrumar as camas e verificar se está tudo em ordem no dormitório para mais uma noite que chega se assusta com a rigidez do cadáver do velho Severino. No entanto, mesmo com o susto; ele não pôde deixar de ver o sorriso nos lábios murchos do morto.
 
 

  Valdeci Ângelo Garcia, 1/2/2010 14:51:06
 
Pessoal, estou enfrentando diversos problemas de saúde, o que vem me impedindo de escrever. Assim, por enquanto; este é o último conto que posto neste site (que amo muito). Vencidas as barreiras atuais, voltarei a escrever outras histórias, as quais farei questão de postar aqui.
 

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