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Nova condenação do Inocente
Valdeci Angelo Garcia
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Timóteo abriu a porta da sala às pressas, mas ainda teve tempo de ouvir a televisão do vizinho informar:
– Jesus Cristo voltou!
“Deve ser outro maluco desses que andam por aí”, pensou, fechando a porta, sem tempo de escutar o resto da notícia.
Desceu correndo as escadas do prédio, porque o elevador estava quebrado outra vez. Tropeçou no último degrau. Quase caiu sobre o porteiro.
– Upa! Desculpe... – sorriu desajeitado para o homenzinho magro e macambúzio, que não se deu ao trabalho de dizer se desculpava ou não o encontrão sofrido.
Também nem precisava, porque Timóteo ia longe. Corria atarantado. Atravessou perigosamente a avenida movimentada, ainda a tempo de pegar o ônibus para a estação Barra Funda, onde embarcaria no metrô rumo ao trabalho no centro da cidade.
O ônibus, como sempre, estava lotado. O metrô muito mais: rodava com atraso devido à enchente da noite anterior.
Timóteo desceu na Estação da Sé sentindo o chão lhe faltar. O ar gelado da manhã lhe bateu em cheio no rosto, tão logo alcançara o cimo da escada-rolante. Esbarrou em guarda-chuvas molhados. O céu carrancudo amaldiçoava o mundo.
– Saco! – imprecou, irado com a chuva insistente. Enfiou o pé numa poça de lama. O frio súbito o fez se lembrar dos sapatos furados. Não quis parar para tirar deles a lama podre. Estava atrasado. Teria que bater o cartão de ponto em cinco minutos; sob pena de ser demitido por justa causa. Já era reincidente em atrasos.
– Palhaço! Um dia vai ser mandado embora também, aí eu quero ver... – monologou, lembrando-se do gerente Marião, quem lhe avisara, quando do seu último atraso, da medida sumária que tomaria contra ele caso voltasse a se atrasar.
Começou a atravessar a praça movimentada. Assustou-se com os rostos das pessoas igualmente apressadas; indiferentes. Sentiu um vazio difícil de explicar. Sempre experimentava esse vazio quando se encontrava na multidão. O alheamento e a solidão das pessoas (e a sua própria) lhe incomodavam. O aspecto cinzento de alguns policiais militares, reunidos quase ao sopé da escadaria da Catedral da Sé, causava-lhe repugnância e certo medo. Fazia-o lembrar da chacina praticada pela PM em Pirituba há poucos dias, quando sete meninos pobres foram baleados e estrangulados por policiais militares – depois de covarde abuso sexual.
“Ei, cidadão, a bala que vai te matar já foi fabricada...” Arrepiou-se. Pareceu ouvir novamente a frase dita por um policial, quando da revista pela qual passara ao retornar do trabalho na última segunda-feira.
Com asco, desviou o olhar ao passar perto do grupo. Apressou o passo. Entrou na Rua Benjamin Constant. Tomou o rumo do Largo de São Francisco. Estranhou a multidão aglomerada no Largo, indiferente à chuva, agora mais forte. Eram, em sua maioria, desempregados e mendigos do centro da cidade. Parou por alguns instantes, curioso. Decidiu abrir caminho. Chegou quase ao centro da roda. Deparou com um jornalista e uma câmera de televisão. Viu, atrás de um refletor respingado de chuva, um homem cabeludo e de barbas negras. Tinha o aspecto descuidado. Trajava um manto encardido e sandálias velhas de tiras arrebentadas. Sua voz reverberava, vencendo o murmurinho que se formara ao seu redor; repetindo com todas as letras o Sermão da Montanha – passagem do Evangelho que Timóteo sabia de cor, pois tivera que recitá-la certa vez na escola quando ainda era menino, e nunca mais a esquecera.
Prostrou-se diante do Homem. Ficou catando as palavras, que eram lançadas no dia frio e molhado. Olvidou-se de seu compromisso e da ameaça do gerente Marião.
A chuva aumentou. Amainou. Passou. As horas também. Timóteo não se deu conta de que o dia fora embora nas primeiras luzes da cidade se acendendo.
Ao contrário do que sempre acontece com a chegada da noite, a multidão ao redor do Homem aumentou. Até alguns transeuntes de paletó e gravata pararam para ouvir o que o estranho dizia. Depois, abrindo um sorriso de desdém, retiraram-se para a choperia mais próxima. Pensavam, em suma, que se tratava de mais um desses evangélicos fanáticos, donos de boa memória para decorar versículos e salmos; e de boa lábia para vomitá-los aos passantes e aos tontos.
Mas Timóteo percebeu que aquele Homem tinha algo diferente na voz; um jeito novo de dizer velhas coisas.
Quando o relógio da Catedral marcou meia-noite, o Homem colocou a mão direita no ombro de Timóteo. Chamou-o para ser pescador de homens. Timóteo, feliz, seguiu-o, juntamente com cinco mendigos. Dois catadores de papel também foram chamados – e deixaram tudo. O mesmo ocorreu com um vendedor de cachorro-quente e um travesti, que se livrou rapidamente dos saltos ponta-de-agulha, para poder acompanhar os passos compridos do Homem.
Passaram a noite sob um viaduto. Tudo o que tiveram para comer foram alguns pães. Depois, alguém apresentou um litro de vinho barato. A bebida passou de boca em boca e se acabou logo.
Na manhã seguinte, o grupo retornou ao Largo de São Francisco, onde mais dois fiscais da prefeitura se juntaram a eles, totalizando doze – os doze apóstolos, como se autodenominaram.
O Homem falava de um mundo diferente; sem trevas, sem discriminação, sem corrupção e sem usura. Falou de um lugar onde todos beberiam da mesma fonte e comeriam da mesma roça; onde não haveria uma ordem preestabelecida, nem leis, nem voz de comando; porque a ordem social e legal estaria com todos os homens. Nesse mundo haveria um único lema: Ame!
A pregação era contundente. O olhar firme do Homem era a prova de que falava com conhecimento de causa.
Meses se passaram.
Os doze apóstolos mantinham-se firmes na companhia do Homem – agora muito mais desgrenhado e magro, tal qual seus prosélitos.
Os pães escassearam. Vinho nunca mais foi bebido. Viviam de esmolas dadas por transeuntes piedosos (O Senhor é meu pastor; nada me faltará...); e camelôs lhes deixavam alguns trocados, ao passo que comerciantes lhes forneciam restos de almoço.
Três anos se passaram.
A despeito da fome e da miséria, a voz firme e convincente do Homem se fortalecia. Ecoava intrépida pela cidade. (Haviam abandonado o Largo de São Francisco, e percorriam ruas e praças, parando para dormir à noite sob marquises e pontes, disputando espaço com andarilhos e moradores de rua.)
Mas os policiais militares atacaram certa tarde. Aprisionaram o Homem. Levaram-no dali a custa de pancadas. Jogaram-no num camburão juntamente com dois ladrões.
– Tu o conheces? – perguntou um policial, segurando com força o braço de Timóteo.
Timóteo titubeou e lembrou-se daquele policial que o avisara de que a bala que o iria matar já fora fabricada. Por isto, respondeu que não. Ao longe, ninguém sabe onde; um galo cantou.
O policial repetiu a pergunta:
– Tu o conheces?
Timóteo ouviu o rumor de pancadas no interior do camburão e a voz do algoz zombando: “Profetiza quem te bate!”. Lembrou-se: “Ei, cidadão, a bala que vai te matar já foi fabricada...”. Por isto, respondeu:
– Não, não o conheço...
Outra vez o galo cantou – lúgubre.
O tumulto aumentou, quando um dos doze seguidores tentou libertar o Homem. Foi atingido na cabeça. Ficou caído na calçada, estrebuchando.
Por isto, Timóteo respondeu, quando o policial, agora irado, tornou a perguntar:
– Tu o conheces, meu chapa?
– Serei eu o guardião desse Homem?
O policial sorriu satisfeito. Soltou-o.
Timóteo ficou parado, vendo o camburão levar o Homem para sempre.
De repente, lembrou-se que não ia para casa há três anos. Concluiu, com acerto, que perdera seu emprego, pois o Marião não iria tolerar tão longa ausência. Bateu a mão no bolso da calça encardida. Percebeu que também perdera a carteira – e a chave de casa.
Passou a noite encolhido numa calçada imunda. Esperou amanhecer. Pediu esmolas na Praça da Sé. Conseguiu o dinheiro necessário para voltar a casa.
No caminho, indiferente aos olhares curiosos dos usuários do metrô; pôde ler no jornal de um passageiro a notícia de que “O Jesus Cristo do centro da cidade foi assassinado num terreno baldio do Parque Santo Antônio”.
Timóteo chorou sem vergonha dos que o olhavam. Lembrou-se do olhar franco do Homem e da sua voz que falava de amor e de um mundo melhor.
Porém, depois de alguns minutos e muitas lágrimas, consolou-se: “Ele ressuscitará no terceiro dia…”
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